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O lado chinês da força
Os ching-ling realmente estão pegando a pipa pela rabiola. Na cultura, nos esportes e na economia o mundo vai, AINDA, ouvir falar muito deles

Texto Juliana Cavaçana
juliana@offline.com.br



A China vem investindo maciçamente em educação. Pasmem! Já é o segundo país do mundo em número de pesquisadores! Charles Tang, presidente da Câmera de Comércio Brasil-China faz questão de ressaltar: "A China abriu 2.000 universidades nos últimos 15 anos". O investimento em educação tem um propósito. "A China tem um plano para a nação. Coisa que não temos aqui, no Brasil. Já é o primeiro país em número de engenheiros, focados no desenvolvimento tecnológico e industrial do país. Dependíamos de tecnologia estrangeira, e a China quer ser independente nesse quesito."

Muitos cérebros chineses estavam sendo perdidos para o exterior. O número de estudantes que ia estudar fora e retornava à China ficava entre 20% e 30%, apenas. O motivo era o aumento de integração da China com o mundo e a falta de oportunidades no próprio país. "A China já está revertendo esse quadro. Ela é, agora, a terra da oportunidade", afirma Tang. O presidente não quis citar nomes, mas conta que a Câmera está implementando um curso de MBA entre duas faculdades top de linha, uma de cada país, para turbinar executivos. Criar um capital intelectual que entenda muito bem dos negócios entre os dois países. "Posso afirmar que esse pessoal vai ser disputado a tapa pelo mercado", comenta.

Brasil 2004 84.979 O que vale é ficar de olho. A China está cultivando cabeças! E conhecimento, em um mundo dependente de tecnologia e inovação, é uma arma poderosa.
China 2004 1.184.846
Alemanha 2004 270.749
Estados Unidos 2002 1.334.628
Japão 2004 677.206
Rússia 2004 477.647
Fonte: ONU - Organização das Nações Unidas

Literatura - E o Prêmio Nobel vai para o Sr. Gao Xingtian! clap! clap! clap!

s livrarias contam com poucos escritores contemporâneos chineses. Os principais motivos são dois. O primeiro é a língua, a dificuldade em traduzir do chinês. O segundo é a repressão que os escritores enfrentam na China para escrever não-importa-o-quê-queiram. Conteúdos considerados pornográficos ou politicamente subversivos não são aceitos. Mas mudanças são visíveis nos dois fronts.

No que diz respeito à tradução, a editora-chefe da Record, Luciana Villas-Boas, conta que sofremos com a falta de bons tradutores de chinês. "O mundo editorial ainda vive o predomínio do inglês e do francês. A própria Alemanha tem dificuldades em vender os seus livros. Imagine a China", ela acrescenta que o mesmo ocorre com o português internacionalmente. "As pessoas pensam que o livro brasileiro não é lido lá fora por falta de escritor ou de aceitação, mas não é. O difícil é traduzir, mesmo." Quanto ao aumento do subsídio que o governo chinês está promovendo para a tradução de títulos estrangeiros, a editora complementa: "Vejo muita preocupação em vender para Coréia e Japão, mas não vejo ninguém preocupado em vender para a China. Especificamente, nesse momento, não tem significado econômico, porque é ínfimo o que os chineses pagam de direito autoral. O capitalismo é uma coisa muito nova por lá, e a arte é a última a ser atingida. Mas logo vai ser e vai ser o mercado ficará supervalorizado. Imagine ser lido por um bilhão de pessoas?", se entusiasma-se.

Muitos autores chineses emigraram para outros países para poder escrever, deviso à repressão. Gao Xingtian, ganhador do Prêmio Nobel de 2000, mora na França. Teatro dos lírios, de Lulu Wang, foi escrito na Holanda. O Olho de Jade, de Diane Wei Liang, nos Estados Unidos.

Yan Lianke, por sua vez, continua vivendo na China. A Serviço do Povo, uma de suas obras mais importantes, é banida em sua terra natal, mas o autor ainda mora lá e o livro é vendido em outros países. Ele reconhece que faz auto-censura para ver os seus textos publicados no país.

É possível perceber que o número de escritores chineses publicados vem aumentando. "É inevitável. A China está se abrindo. Tudo está sendo exportado. É inegável que os escritores também queiram ser conhecidos, internacionalmente", finaliza a editora.

Cinema - nós vamos invadir a sua praia

O prestígio dos cineastas chineses cresce no mundo. Com a abertura de mercado e o maior contato com a cultura ocidental, seu cinema ganhou características mais digeríveis ao público fast food, o lado de cá do planeta, que gosta de coisas mais velozes e de pronta entrega. "O filme oriental era superlento. Tinha um ritmo próprio. A gente estranhava. O Clã das Adagas Voadoras e Hero, por exemplo, já são mais fáceis de assistir, mesmo para quem não está acostumado ao cinema oriental. Eles já têm um andamento mais próximo do cinema ocidental. Não são tão parados, não têm tantos silêncios", comenta o cineasta Ricardo Laganaro, da Mínima Films.

Algumas outras presenças capitalistas estão nos pequenos detalhes. "Você vê coisas que não via antes. No figurino, há uma influência da sociedade de consumo. Você vê, no filme, a chinesa com a bolsa Louis Vuitton, usando roupa de grife. Mas isso é uma coisa superficial, pois na essência do filme eles continuam chineses", complementa Fábio Yamaji, diretor de animação e professor do Instituto Europeo di Design e da Anhembi-Morumbi.

As mudanças funcionam como uma roupagem nova, mas que cobrem o mesmo corpo. "O Tigre e o Dragão" introduziu um tipo diferente de cinema no ocidente que, na China, é feito há muitos anos. O cara sair voando... duelos intermináveis... Entrou no ocidente como se fosse uma coisa sofisticada. Cineastas importantes passaram a fazer esses filmes e ajudaram a popularizá-los", explica Yamaji.

Com as devidas honras ao mérito, os chineses impressionam em direção de arte e fotografia. Valorizam as coreografias de luta e dança. Enquadramentos estudados, cenas complexas em que os encenes dos atores e a câmera são minuciosos. "Os planos são muito bem pensados. Não vale só o ator, como em filmes americanos, que enquadram o Tom Cruise e mandam ver", explicita Laganaro. O filme chinês também está influenciando o jeito com que fazemos imagem, por aqui. "Já ouvi muitas vezes, no mercado publicitário 'Pô, vamos fazer alguma coisa que lembre o figurino do Hero'. O lance das roupas, do cabelo é usado para realçar o movimento, a plasticidade do movimento", exemplifica.

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