Hiro Kawahara, 43, é um dos mais admirados ilustradores brasileiros. Quem já foi ao McDonald's, certamente conhece o seu trabalho. É ele o responsável pelas toalhinhas das bandejas, entre muitas coisas mais. Sua história é bacana. Estudava biologia, quando sua paquera arrumou um emprego em uma editora. Foi atrás do rabo de saia e conseguiu um emprego como ilustrador, tendo como portfolio seu caderno e um repolho, desenhado às pressas no banheiro e usando a água da privada para molhar a aquarela.
A paquera terminou, mas no lugar ganhou uma carreira. Teve a sorte de contar com grandes ilustradores, colegas de trabalho, como ele mesmo diz - mestres que o ensinaram a desenhar.
Atualmente, trabalha como free-lancer para diversas agências de publicidade e design. Faz ilustrações, direção de arte, jogos, personagens, embalagens e logotipos. Hiro é um cara para lá de simpático, sempre com uma risada bem humorada, que condiz com o tom do seu trabalho. Sua entrevista é uma aula.


Você chegou a se formar em biologia?
Faltavam quatro meses para acabar o curso. Desencanei porque o que ganhava, naquela época, dava para comprar um carro. Você pensa, ainda garoto, é meio idiota "vou ficar aqui, direto". Hoje me arrependo um pouco. Podia ter terminado, faltava muito pouco tempo, mas aconteceu. Tinha cerca de 20 anos.
O que me agradou muito foi trabalhar de verdade com desenho. Dei muita sorte porque no meio dos ilustradores tinha um cara muito famoso, Brasílio Matsumoto, que é um dos maiores ilustradores do Brasil, hoje. Ele me dava umas dicas, me ensinava como trabalhar. Foi uma coincidência muito feliz.
Você já sabia desenhar quando conseguiu o emprego na editora?
Aprendi a desenhar, trabalhando. Se você pega meus desenhos no começo da carreira, eles são terríveis. Erros de proporção, de perspectiva, que foram sendo sanados aos poucos. Hoje em dia, não é mais possível fazer isso. Se um ilustrador quiser começar uma trajetória, fazendo como eu fiz, é praticamente impossível. Era uma época que não tinha faculdade de publicidade, não tinha faculdade de design. Era outro método de trabalho e de aprovação. Eu fui a raspa do tacho, vamos dizer assim... O mercado hoje é muito diferente, muito mais difícil, muito mais regrado.
Desenho mesmo, nunca estudou?
Sou autodidata, mas não me orgulho. Não gosto dessa palavra. Não estimulo o autodidatismo para ninguém. Só fiz isso porque não tinha muita grana. Meu pai é feirante. A gente não tinha condições. Hoje em dia, pego muito garoto que se orgulha de ser autodidata, mas não estimulo, de forma alguma. O curso é fundamental para tudo. Sem isso, você pode até chegar a ser um ótimo profissional, mas vai levar mais tempo. Você erra mais e não cresce tão rápido do que quando tem um mestre ao lado.
Agora eu estou fazendo curso de desenho, mas por outros motivos. Não para aprender, mas para me aperfeiçoar. Ano que vem vou fazer um, nos Estados Unidos, chamado Illustration Academy. Quem ministra lá são ilustradores do New York Times, por exemplo. É curso de ilustração para ilustradores. Você já tem de saber desenhar.
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