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Existe vida além de Hollywood
O universo B, trash, erótico e violento dos filmes exploitation

Texto Nathan Elias Fernandes Jornalismo, Cásper Líbero
jurumim@hotmail.com



Subgêneros trash

Mas nem só de sexo e devassidão viveu a indústria exploitation. Há ainda muitos outros subgêneros que desafiam a criatividade humana. Um deles é o bruceploitation, filmes feitos por atores parecidos com Bruce Lee, em produções realizadas com a única intenção de lucrar após a morte do astro oriental. Há também os filmes de horror, como os zombie films e os cannibal films. Um exemplo deste último é Cannibal holocaust (1980). O longa mostra cenas de violência tão assustadoramente reais que o seu diretor, o italiano Ruggero Deodato, teve de convocar o elenco e se explicar às autoridades. Isso sem contar os maus-tratos aos animais. Por esses motivos, o filme, ainda hoje, é proibido em vários lugares do mundo.
Os exploitation tinham a intenção de chocar e derrubar tabus. Mas também exploravam, de forma diferente, o que ninguém ousava mostrar. Assim nasceu um outro subgênero, e talvez o mais famoso, o blaxploitation. Este era um tipo de produção dirigida totalmente aos negros, feita para suprir a carência deixada pelos grandes estúdios que só os mostravam com certa irrelevância. Muitos destes filmes apresentavam seu cotidiano e também serviam para exaltar o orgulho que sentiam. O boom da produção ocorreu na década de 70 com filmes como Blacula (1972), Black Caesar (1973) e Car wash (1976). Não que antes disso inexistissem artistas negros no cinema, mas foi com o blaxploitation que eles ganharam maior visibilidade.
É possível e compreensível a afirmação de que os exploitation não tinham muita qualidade técnica. Mas dizer que eles não possuíam mérito algum é um erro. Alguns filmes traziam incríveis trilhas sonoras e esbanjavam criatividade nos cartazes. Alguns blaxploitation, por exemplo, tinham suas trilhas compostas por James Brown, participações de Aretha Franklin e de grupos como Earth, Wind and Fire, só para citar os mais famosos. Quanto aos cartazes, o crítico americano Dave Kehr, no livro Film posters - exploitation, disse que alguns deles representavam muito mais cuidado e esforço do que os próprios filmes. E vários artistas destacaram-se, numa época em que design gráfico era coisa de outro planeta, como Alvan Cordel "Hap" Hadley, que chegou até a fazer cartazes para filmes de Charles Chaplin. Com o aumento da tolerância sexual, da permissividade e várias outras transformações da sociedade, o exploitation perdeu o seu rumo. Os tabus já haviam sido derrubados e não havia
O fenômeno não se restringiu apenas ao hemisfério norte. Nos anos 70, em pleno auge da ditadura militar, o subgênero também desceu a linha do equador e se estabeleceu em terras brasileiras. O que aqui é conhecido como pornochanchada não passa de um sexploitation abrasileirado. Mas, aqui, para ser liberados pela censura, os filmes tinham de se submeter a várias exigências e cortes que acabavam por deixá-los irreconhecíveis.

 

mais sentido em continuar. Hoje, para encontrar um desses clássicos trash no Brasil, é preciso garimpar um tanto. Ou simplesmente ir até uma pequena casa encurralada por duas outras, nas imediações da rua Augusta. É o bar Astronete, onde o exploitation está presente na decoração, com exibições gratuitas de filmes às quartas-feiras para os despudorados apreciadores do estilo. O bar atrai muitos freqüentadores. Mesmo que pareçam não representar nada além de produções toscas, redubladas em programas da MTV e do Multishow, ainda assim, por trás das
ameaças de destruição da Terra por zumbis e cenas calientes, eles deixaram seu recado. E ainda trouxeram um pouco de imaginação numa época duramente atingida por guerras tão sem sentido quanto os seus roteiros.

 

 

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