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Bartira e os nativos

Texto Pedro Hutsch Balboni
Publicidade e Propaganda, ESPM
phbalboni@hotmail.com
http://maoamarela.blogspot.com

As folhas arranham. O toque áspero agride a pele suave. Mas a expressão é serena. Passo após passo, o homem adentra na floresta. Seguindo a esquecida trilha, ele ruma para o coração negro de lá: o castelo de Bartira. Esse nome causa calafrios em qualquer um, mas não nele. Não mais. A lenda nos conta que a feiticeira foi expulsa dos calabouços que prendem os mortos e voltou à vida, com os segredos do além. Ela escravizou os nativos de uma região onde construiu seu castelo, um monumento de pedra que inspira medo em toda a redondeza. Quem a conhece não sobrevive para compartilhar a experiência. O povo das cidades a teme até mais que a morte, e sua floresta sombria permanece, há muito, intocada. Até agora. O barulho do mato pisado se assemelha a gemidos de algum felino, desacostumado a ser incomodado. O vento assobia como que num aviso. As árvores balançam, se esbaldando com a futura tragédia. Mas os passos são firmes e seguros.

Após horas num ritmo acelerado, a musculatura dá uma pequena brecha ao cansaço. A trilha se alarga, o sol não faz sombra. Metade do dia já havia passado. O homem chega a uma clareira onde um totem de pedra ocupa o lugar central. Ele sabe que para passar dali deve se despir de suas angústias, de suas preocupações, de seus preconceitos, deve se despir literalmente, caso contrário, os nativos não o pouparão. Após fazê-lo, ele segue a trilha. agora, com piso mais batido, ela é muito mais utilizada.

 

- Vim exigir, em nome do meu povo, que seja amistosa! Não queremos mais guerrear com você, não queremos mais que nossos filhos cresçam com medo de pronunciar seu nome!

Uma risada assustadora rasga o ar. Os tambores cessam.

- E por que você acha que eu aceitaria tal oferta?

- Porque você mente! Você não tem nem metade do poder que alega ter! Não teria forças para salvar sua vida de mim, agora mesmo!

A feiticeira fita o rapaz. Seu olhar o penetra.

- Meu jovem, dominei um povo inteiro com meu poder. Domino a floresta com reles pensamentos. São meras extensões de mim, apenas esperando minha palavra. Seria capaz de entregá-lo aos braços da morte sem mover um dedo.

- Mentiras! É nisso que seu poder se baseia! Se fosse mesmo tão poderosa, capaz de tudo que alega, eu já não estaria mais vivo! Meu povo estaria dizimado! Mas não, o máximo que você é capaz de fazer...são ilusões!


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