
“A primeira frase deve ser o laboratório no qual se resolve a maior parte dos problemas do livro, desde o tema até o estilo e o tom”. Esta máxima de Gabriel Garcia Márquez já diz muito sobre a importância do início de uma obra literária. Não deve haver muitos escritores no mundo que não se preocupem com isso. Uma formulação ruim, logo de cara, pode estragar todo um trabalho.
Uma boa maneira de começar um texto pode ser pelo óbvio, apresentando na primeira pessoa o personagem principal. Alguns escritores geniais usaram esse artifício. Por exemplo, após o “Chamai-me Ismael” Hermann Melville construiu, com “Moby Dick”, um dos grandes (se não, o maior) monumento da literatura norte-americana. Edgar Alan Poe iniciou o seu único e fantástico romance “O Relato de Arthur Gordon Pyn” com a singeleza de “Meu nome é Arthur Gordon Pyn.”
Iniciar um texto, demonstrando um traço marcante do narrador, também pode ser uma boa idéia. “Sou um homem doente... Sou um homem mau.” Dostoievski, grande admirador de Poe, faz seu personagem apresentar sua principal característica, na primeira frase de seu melhor conto. “Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso”, é a abertura de “O Apanhador no Campo de Centeio”, do ermitão J. D. Salinger, dita por Holden Caulfield, o adolescente mais celébre da história da literatura (Harry Potter não conta). Ela revela muito sobre o personagem, assim como: “O lugar que eu mais gosto neste mundo é a cozinha”, da escritora japonesa Banana Yoshimoto, ressaltando uma curiosa preferência da protagonista de “Kitchen”.
A sentença “Hoje mamãe morreu” pode parecer banal, mas é por causa da reação do narrador a esse fato que toda a trama de “O Estrangeiro”, de Albert Camus, acontece. Uma das influências de Camus, James M. Cain, inicia seu “O Destino bate à sua porta”, clássico da literatura “noir”, de forma diferente, já em plena ação: “Fui jogado para fora do caminhão de feno por volta do meio-dia”. Mesmo método usado por Paul Auster em seu “noir” filosófico “Trilogia de Nova York”: “Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando 3 vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali”.
As sacadas de Kafka, Poe, Dickens, Salinger... estimulam exemplos de bons começos.
Um dos mais inspirados inícios, na avaliação de muitos críticos, é o de “Riso no escuro”: “Era uma vez um homem que se chamava Albinus e vivia em Berlim. Era rico, respeitável e feliz; certo dia abandonou a mulher por causa de uma jovem amante; amou, não foi amado; e sua vida acabou em desastre”. Ao começar assim, o escritor russo Vladimir Nabokov deixa bem claro que não importa a trama, e sim o estilo.
Outra frase inicial memorável é a de “Lolita”. “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne”, do mesmo autor, demonstrando desde o começo a obsessão de Humbert Humbert.
Alguns escritores preferem começar com uma descrição física do personagem. É o caso do primeiro romance moderno: “Ulisses” de James Joyce: “Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha”. Ou de “Lorde Jim”, de Joseph Conrad: “Ele tinha
quase um metro e oitenta, uma constituição forte, e avançava direto para a gente com uma leve curvatura dos ombros, a cabeça projetada para frente e um olhar fixo por baixo das sobrancelhas, que fazia pensar num touro arremetendo”.
Kafka foi um mestre na arte de começar um livro. É só ler a primeira frase de “A Metamorfose” para constatar: “Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. É a favorita de muitos escritores.
“O arco-íris da Gravidade”, de Thomas Pynchon, além de ser um dos mais importantes romances norte-americanos da segunda metade do séc. XX, tem também um dos mais belos inícios: “Um grito atravessa o céu”. E, para fechar a lista, uma escolha pessoal: “Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade do disparate, era a época da fé, era a época da descrença, era a estação da Lua, era a estação da Treva, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero”, primeira frase de “Um Conto de Duas Cidades”, de Charles Dickens.