“IR AO TEATRO É COMO IR À VIDA SEM NOS COMPROMETER”, já dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade. A praça Roosevelt, com sua característica boêmia, inspira a falta de comprometimento numa cidade com excessiva quantidade de estresse. É um lugar em que o espectro do teatro toma proporções vãs e contagia os seus freqüentadores. Pela calçada, que não é da fama, mas por onde passaram várias personalidades do teatro, mesas amontoadas abrigam boas conversas, embaladas por drinks, entre uma peça e outra.
Para consolidar o ambiente artístico descontraído do pedaço, foi inaugurado, recentemente, o Espaço Cultural Ópera Buffa, composto por um pequeno teatro com 50 lugares e um cabaré. A direção de programação é do talentoso e impecável Heron Coelho. “A casa surgiu também para dar vez à música. Estamos, inclusive, com um projeto documental chamado Retrato Cantado, um dos destaques da programação. Enquanto o artista se apresenta, vídeos são exibidos com a sua vida e obra”, explica o cantor e produtor Marco Goulart, que fará temporada, em junho, às quartas-feiras à noite. Outro grande nome da cena musical que está por trás das atrações do Ópera é o produtor Thiago Marques Luiz, responsável por alguns dos mais excelentes discos da última fornada da MPB. Juntos, Heron, Marco e Thiago estão criando um ponto de referência.
Quem almeja desfrutar mais desse ambiente peculiar, provido de uma energia envolvente, pode continuar a empreitada pelo Satyros Um. Um pequeno café, na entrada, dá as boas-vindas. Em 146 m², há também uma área para exposições. A sala de apresentação, dependendo do formato da platéia, tem capacidade para 50 a 100 pessoas. Em cartaz, a peça “Amor e restos humanos”, direção de Marco Antonio Pâmio, uma das mais aclamadas da cena teatral, nos últimos anos.
Logo ao lado, o confortável Espaço Parlapatões, inaugurado em 11 de setembro de 2006, trouxe a comédia ao mundo alternativo da Roosevelt, com uma ótima infra-estrutura, palco clássico e platéia para 98 pessoas. Apresenta, atualmente, a peça “O Natimorto”, dirigida e adaptada por Mario Bortolotto. O ambiente tem acesso para deficientes, ar-condicionado e um agradável café-bar. É um convite para uma parada no conturbado estilo de vida paulistano.
Os espaços Satyros e Parlapatões funcionam de domingo a segunda e há sempre uma grande variedade de atrações em cartaz, simultaneamente, e a preços acessíveis. Segundo a atriz Adriana Quintanilha, “a praça é um lugar excelente para se encontrar com os amigos e freqüentar uma atividade cultural durante toda a semana”.
Na mesma calçada, os teatros Studio e do Ator que, embora sem tanta expressão quanto os seus vizinhos, oferecem, vez ou outra, boas surpresas, abrigando produções independentes, em sua maioria. Um bom desafio é completar o circuito e assistir a uma atração em cada um desses lugares pitorescos.
Percebe-se o crescimento da cena teatral na Roosevelt com a constante procura de grupos por espaço de apresentação, uma média de 30 companhias por mês, apenas no Satyros. “Cerca de 1.200 pessoas freqüentam o espaço Satyros, semanalmente, com o objetivo de deleitar-se com os espetáculos em cartaz”, afirma a produtora Geisa Gutervil.
O acesso ao teatro de qualidade está barateando e cabe no orçamento de muita gente. Além disso, as possibilidades que grupos alternativos e independentes oferecem transformam o local numa verdadeira off-Broadway para aqueles que não se interessam por musicais importados nem por teatrões. A praça, freqüentada por artistas, estudantes e público em geral, virou ponto de visita obrigatório no circuito cultural paulistano. Um lugar genuinamente cult e um celeiro de novos talentos.

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