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Nesta casa há formigas
Texto Rafael Lacerda Zanatto, 22 anos Texto História, FFLCH/USP Ilustrações Pop Munster

Em todo lugar que eu olho, há uma formiga. Elas vão andando, apressadas e vagarosas. Em todo lugar. Peguei a caixa de leite na geladeira, pra esquentar, fazer café com leite. Esse leite é desnatado. Ninguém gosta de nata, isso é bem verdade, mas esse leite é verde. Quem gosta de leite verde? Nem as formigas. Fui adoçar meu café, vocês já sabem. Não vou nem falar.

Eu não odeio as formigas. Eu gosto delas. De todas elas. Desde pequeno, sempre gostei. Meu amigo odiava. Odiava qualquer tipo de insetos. Nem joaninhas ou borboletas ele perdoava. Coitadas. Joaninhas e borboletas são a high society dos insetos. Mas as formigas estão em todo lugar. Não são raras, nem bonitas. São pontinhos pretos apressados. De vez em quando carregam folhas. Aí você lembra daquela aula de biologia, ou de um documentário da Discovery. É, não é um besouro, mas é gulosa.

Elas apenas trabalham. Não me venha com a história da formiga e da cigarra. Eu gosto da cigarra, acho que ela está completamente certa. A vida foi feita pra isso. Ela é um inseto de nada, e a qualquer momento meu amigo pode chegar e esmagá-la. Ela ou a formiga, tanto faz. O que importa é que a cigarra morreria cantando, e a formiga trabalhando.

"Seria realmente legal se vocês publicassem qualquer texto meu. Provavelmente eu mandaria enquadrar a revista e mostraria pra minha vó! E me ajudaria bastante com as mulheres."

Mas não as culpo por serem tão diligentes. Outro dia abri um livro, e lá havia formigas. Elas estavam lendo Faulkner. A tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing. Não, não há luz. Não, não há tempo. Você não tem nada, sua vida foi apenas uma mentira. Este é o momento exato em que a cigarra está certa, e a formiga foi esmagada. Mas, afinal, o final. Sempre adorei estragar os rastros das formigas, isso é bem verdade. Eu não gosto de machucar formigas, elas são minhas amigas. Quando elas estão na pia, e eu quero lavar as mãos, eu digo "Sai daí!". E eu dou meu dedo, elas sobem, e eu as coloco num lugar seguro, longe do Mississipi que explode da torneira. Mas eu estrago seus rastros. Passo o dedo no caminho, e a marcha é interrompida. Elas não enxergam, não têm senso algum de direção.

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