POLÊMICA É SAUDÁVEL, SEMPRE. BRASILEIROS ADORAM. Luciana Gimenez adora. Até os camelôs começam a gostar do cinema nacional, inclusive porque as últimas polêmicas estão rendendo algum dinheiro. Tudo graças à recente popularidade desses novos anti-heróis: Capitão Nascimento, Johnny, Zé Pequeno, Llady Ddi, Ssem Chance, Buscapé, Neto e tantos outros. Nosso cinema os prefere porque trazem à tona o anti-idealismo, o gosto ultra-realista e as circunstâncias agressivas, dolorosas da vida brasileira.
Entretanto, para compreendermos o fascínio geral despertado pelos anti-heróis, é preciso primeiro relembrar a gênese do herói. De acordo com o professor de Língua e Literatura Grega da USP, tradutor, ensaísta e poeta Antonio Medina Rrodrigues, o herói pode nascer da aclamação popular espontânea. Num determinado momento, pelo acaso ou destino, alguém se responsabiliza por todas as coisas importantes e é reconhecido pelo povo como herói.
O professor Medina e a psiquiatra Paula Mofarrej, do Hospital das Clínicas, classificam o reconhecimento do herói (e, por extensão, do anti-herói, como veremos mais à frente) como característica pertencente ao inconsciente coletivo da população ao longo dos tempos. Iisso porque o ato heróico faz parte de uma série de expectativas que a sociedade precisa projetar em alguém, diminuindo assim sintomas decorrentes de culpa, ansiedade e impotência diante do que o "cidadão comum" não pode resolver.
"Em primeiro lugar, o herói precisa ter alta admirabilidade: ser positivo em quase tudo, mesmo nas coisas menos importantes, como não ter mau hálito, cheirar bem, etc. Os deuses gregos são vistos até hoje desse modo", diz Medina. "Em segundo, ele tem que estar com a sua vida à disposição, ou seja, ter a convicção de que a vida pessoal vem depois. Mais importante é o outro. Terceiro: tem que ter carisma. O Pelé, por exemplo, vivia sendo considerado herói, ao menos do ponto de vista do seu saber técnico, mas algo nele não confere com a figura do herói".
> O caráter e o povo
Assim, podemos dizer que existem heróis folclóricos, pedagógicos, míticos e fabricados. A maior parte dos heróis hoje são fabricados: basta ver os galãs de cinema, os personagens de histórias em quadrinho, os candidatos ao governo sempre retocados e agindo conforme mandam os marqueteiros. Por outro lado, talvez uma das maiores personagens da literatura brasileira, Macunaíma, de Mário de Andrade, é um grande representante folclórico: filho de índia, vivia ao sabor da sorte e de tirar vantagens nas mais variadas situações, inclusive em suas incontáveis investidas com o sexo oposto. E quem não lembra da célebre: "Ai, que preguiça"?
Mesmo descrito como herói, Macunaíma é ambíguo, pois pensa nele e só nele, ao mesmo tempo em que possui a confiança e admirabilidade em seu território. O mais importante, talvez, na popularização do anti-heroísmo é o reconhecimento de suas qualidades pelo povo, que o toma como um ídolo. "Aprendemos sempre com eles, sem dúvida. Nas próprias histórias de heróis da comédia, tanto na Grécia como hoje, eles são os palhaços, mas possuem uma atividade espiritual que é superior às bobagens cometidas. Ao final, como Dom Quixote, acabam redimidos e aclamados pela opinião pública".
O anti-herói pedagógico, na verdade, parece trabalhar num ringue. Muitas vezes, o vencedor da disputa será aquele que apanha mais e, ao parecer quase morto, revida com um golpe certeiro. Ele é a figura irônica por excelência, porque não o reconhecem, mas ele sabe que é superior aos seus competidores e que, no momento apropriado, triunfará.
> Seja marginal, seja herói
As personagens levadas para as salas de cinema, como Macunaíma e o chefe do Bope, podem facilmente se encaixar em todos esses gêneros de anti-heróis. Suas temáticas já estão suficientemente gastas, pois desde as décadas de 60 e 70 a fonte foi a mesma: "O Bandido da Luz Vvermelha", "O Assalto ao Trem Pagador", "Boca de Ouro" e outras histórias lendárias...
No entanto, novidades aparecem, e num salto, os roteiros de destaque priorizaram as agruras dos exilados políticos e seus dramas, alguns deles até existenciais, como ocorreu em "O que é Isso, Companheiro?", do Gabeira. Assim fomos evoluindo, e, entre uma pornochanchada e outra, surgiram, afinal, dois ícones: "Carandiru" e "Cidade de Deus". De acordo com Isabela Boscov, em recente artigo de VEJA, "a qualidade das narrativas de Meirelles e Babenco é inegável e, com eles, a vida do ponto de vista do crime, ou de quem existe na sua proximidade, permanece, talvez, o maior tema do cinema brasileiro".
Podemos, porém, ver essa Tropa de Elite como provisório afastamento do criminoso coitadinho e do bandido camarada. O caos prossegue, mas sem essas figuras tão brandas quanto perigosas e que parecem denunciar a nossa própria culpa nisso tudo. No sentido contrário de uma política piedosa ou supercompreensiva, a personagem vivida por Moura é diferente.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>