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Quando videogame e ciência se encontram...
O professor Marcelo Zuffo (USP) revela a sofisticada tecnologia por trás dos consoles e analisa o novo paradigma de interatividade inaugurado pelo Wii.

Texto Felipe Moreira Ilustração Tommy Pissini

O futuro dos jogos eletrônicos está profundamente atrelado ao desenvolvimento da ciência, certo? Sim. No entanto, as tecnologias dos games também retribuem.
O novo console "Go to Space" é um recorde de vendas em todo o Planeta. O game transporta o jogador para o espaço sideral, simulando os efeitos da gravidade zero em missões interestelares. A sensação de realismo sem precedentes é proporcionada por duas lentes ópticas de alta definição, utilizadas diretamente sobre as retinas, fones de ouvidos minúsculos e ventosas aplicadas em diversos pontos da pele do jogador.

Os dispositivos são ligados por tecnologia sem fio a uma pequena central de processamento acoplada à TV Digital e à Internet, com link direto para a página do "Go to Space", onde jogadores de diferentes partes do mundo competem. A realidade virtual proporciona imersão completa e sensações como calor, frio e até mesmo dor, por meio de impulsos elétricos.

Os "astronautas" podem, por exemplo, explorar cenários idênticos aos encontrados em Marte nas expedições do robô Mars Rover, em busca de vestígios de vida fora da Terra ou ainda ser o quarto integrante da Missão Apollo 11, que levou pela primeira vez o homem à Lua em 20 de julho de 1969, ao lado de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins. Parte da tecnologia do videogame foi desenvolvida pela NASA.

A notícia acima ainda não é verdadeira, mas poderá ser em um futuro não muito distante. Segundo Marcelo Zuffo, professor da USP especializado em meios eletrônicos interativos, as tecnologias empregadas nos videogames são avançadíssimas. "A computação gráfica utilizada nesses aparelhos é de extrema sofisticação. Utiliza conhecimentos científicos nas áreas de geometria euclidiana e óptica geométrica. As simulações que animam os modelos são baseadas em algoritmos extraídos da sociologia comportamental. A microeletrônica envolvida é tão sofisticada quanto à dos supercomputadores utilizados para previsão do tempo", afirma.

Interatividade é a palavra-chave para se compreender a tendência inaugurada pela empresa japonesa Nintendo ao lançar o console Wii. Os inventores de Mario Bros criaram uma fórmula que reúne jogabilidade intuitiva e a constante interação física dos jogadores. Mais do que apertar botões, o corpo todo é convidado a participar. "O Wii é uma proposta de um novo paradigma no qual o foco na interatividade é superior ao foco na alta qualidade gráfica, estabelecendo uma nova tendência na área de videogames", analisa Zuffo.

Antes considerados apenas brinquedos, os jogos eletrônicos acompanharam a evolução da tecnologia e se tornaram centrais de entretenimento doméstico. Para se ter uma idéia, segundo o NPD Group, esse mercado movimentou cerca de US$ 19 bilhões (incluindo acessórios) só nos Estados Unidos no ano passado. Além disso, a cada novo modelo desenvolvido, não são apenas os fãs que saem ganhando, mas a ciência também. O professor Zuffo assegura que o videogame serve de parâmetro para outros tipos de pesquisa. "Sua arquitetura interna compara-se aos supercomputadores mais avançados do mundo. Atualmente vários pesquisadores os estão utilizando para cálculos complexos em genômica, previsão de tempo, modelagem sísmica, dentre outras investigações científicas de grande porte. Já se discutiu, inclusive, a possibilidade de simulação de bombas atômicas nesse ambiente".

A TV Digital não ficará de fora das transformações que os videogames estão provocando. As duas máquinas se cruzarão no futuro próximo. "Não tenho dúvida disso", assegura o especialista, citando os exemplos do Playstation 3 e do Blu-ray (veja box abaixo). Essa revolução parece ser rápida e cada vez mais invisível aos olhos dos consumidores. "Chamamos este fenômeno de "pervasividade tecnológica", com os avanços da engenharia de usabilidade e a miniaturização da microeletrônica, a tecnologia estará cada vez mais embutida nos nossos corpos e utensílios cotidianos", assegura.

Se ele existisse, seria assim...

Nosso designer Tommy Pissini imaginou como seria o "Go to Space" e deu uma cara ao produto fictício. O pessoal pensou mesmo se tratar de um novo console. O duro foi desmentir, depois daquela vontade de flutuar no espaço que rolou. Só foi amenizada com o campeonatinho de "Win Eleven" entre marketing e redação. Deu empate. Por enquanto.


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