De: Egito Para: Mim

Suvenir
su.ve.nir
sm (fr souvenir) Objeto que caracteriza determinado lugar e que é vendido como lembrança, principalmente a turistas.

Suas coisas dizem muito sobre você. O tipo de roupa que usa, seus livros, os objetos que decoram seu quarto, aquilo que invariavelmente atrai o seu olhar nas vitrines ou que geralmente ganha de presente. A partir dessas coisas é possível supor se você é uma pessoa romântica, agitada, seus gostos, qualidades e defeitos. Não que suas coisas possam te definir completamente, apenas ajudam a ter uma ideia de quem você é.

Definir uma cidade ou país segue a mesma linha de raciocínio. O que define um lugar? Seu povo, sua língua, suas características físicas, sua economia, enfim, conceitos bem profundos e complexos, mas que podem ser representados através dos suvenires. De acordo com a definição do Michaelis ali de cima, suvenir é algo que caracteriza um lugar, meio que numa tentativa de se explicar rapidamente e de uma forma atraente o “onde” da onde veio. No Brasil, por exemplo, nós temos as fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim. O que elas dizem de nosso país? Para mim, dizem que somos um povo cheio de cor e de vida e que a fé é um sentimento forte entre nós, independente da religião.

Geralmente damos suvenires como lembrancinhas de viagens, levando assim um pouco de tudo que vivemos para as pessoas que não estiveram lá conosco. Mas eu também gosto da ideia de que alguns suvenires não devem ser dados e sim mantidos conosco – até mesmo porque não são objetos que os outros dariam o mesmo valor que nós. Não que quem viaja precisa de lembranças, afinal todas as memórias que conserva na cabeça são mais do que suficientes para nunca se esquecer do lugar para onde foi. Mas nós somos materialistas! Eu, pelo menos, sempre fui. E por isso que, quando fiz um intercâmbio para o Egito entre dezembro e janeiro passados, fiz uma lista de presentes que precisava trazer e dentre os nomes escritos fiz questão de por o meu também. Assim, trouxe pirâmides em miniatura, lenços, camelos de pelúcia, entre outros, e alegrei meus familiares e amigos com esses pedacinhos de Egito. E foi num desses dias de compras vorazes que eu achei meio que sem querer o meu suvenir: o Olho de Hórus.

Hórus é um dos deuses do panteão egípcio. Representado por um falcão, Hórus era considerado o Deus do Céu e filho de Ísis e Osiris. De acordo com a mitologia egípcia, depois da morte de Osiris, causada por seu invejoso irmão Seth, Hórus assumiu o trono no lugar do pai e iniciou uma guerra contra o tio para preservar seu posto. Em uma das batalhas, Seth feriu Hórus arrancando um de seus olhos. O Deus do Conhecimento, Thoth, substitui então o olho perdido por um amuleto que mais tarde seria conhecido como Olho de Hórus, mescla de visão humana com a de falcão, e que garantiu a vitória de Hórus sobre Seth. O Olho de Hórus possui diversos significados: o Direito representa os sentimentos e a intuição, enquanto o Esquerdo representa a lógica e a informação factual. Usado como amuleto, o Olho de Hórus é famoso por afastar o mau olhado, trazer proteção e vigor. Não sei dizer o que atraiu tanto a minha atenção para esse amuleto; talvez o fato de representar algo que passa por dificuldades, mas depois ressurge mais forte e determinado. Talvez seja o simples clichê egípcio. Talvez eu me identifique com a lenda ou talvez não tenha motivo algum. Mas vagando pelas lojas de Alexandria eu achei esse pingente em forma de Olho de Hórus e, mesmo sem saber o motivo, resolvi que seria o melhor suvenir que eu poderia levar – e que toda vez que eu usasse sentiria aquelas seis semanas de Egito pulsar em mim.

Regiane Folter

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