Brasil por olhos “espanholes”
A espanhola Laura Lopez Vargas, 23 anos, está se despedindo do Brasil depois de quase cinco meses vivendo na cidade de Bauru, São Paulo. Natural de Jaén, Laura mora em Sevilha, onde cursa Jornalismo, e veio para o Brasil estudar um semestre na Universidade Estadual Paulista (Unesp) graças a uma bolsa de estudos e é a primeira vez que mora em um país estrangeiro.
Offline: Porque o Brasil?
Laura: No último ano [da faculdade] eu decidi que tinha que fazer um intercâmbio e achei essa bolsa que era para a América Latina. Tinha muitos destinos, México, Chile, Uruguai, Argentina, muita coisa. Mas eu achei melhor vir para o Brasil porque queria aprender um novo idioma. Se eu fosse para o México, seria a mesma coisa, né. E também porque achava o Brasil um lugar legal para conhecer.
O: O que você já sabia do Brasil?
L: Não muito! A visão que a Europa tem do Brasil é típica, é carnaval e futebol. Eu sabia que era um país com muita cultura, tinha muita, muita variedade e eu gostava bastante disso. Eu queria ir para um país e conhecer muita coisa, por exemplo, aqui em São Paulo eu visitei colônias japonesas. Eu achava legal e estranho, “como assim japoneses em São Paulo? Porque?”
O: Como foram as primeiras semanas aqui?
L: Foram boas, porque era tudo novo. Qualquer coisa que fazia era novidade. Eu cheguei e não conhecia ninguém. Antes de vir para Bauru, contactei algumas pessoas por Facebook e disse “olá, sou uma menina espanhola, estou fazendo intercâmbio e eu gostaria de saber onde posso morar, etc”. Ai eu falei com um menino e ele disse que eu poderia morar em sua casa até achar alguma coisa. Então cheguei em Bauru e liguei para esse menino, que eu nem conhecia direito, e disse “por favor, estou na rodoviária!” e ele veio me buscar. Nas duas primeiras semanas fiquei na república desse menino, todos foram muito agradáveis comigo, e depois mudei para um apartamento.
O: Foi muito difícil a questão da língua, essa diferença?
L: Ah, eu não sabia falar nada, só sabia “obrigado”. O primeiro dia foi horrível, não conseguia entender nada. As pessoas falavam muito devagar comigo, mas ainda assim eu não conseguia entender muita coisa. Mas o pessoal era paciente comigo. Depois, bem. Porque as línguas são muito similares, é fácil de entender.
O: Fala um pouco do seu cotidiano, o que você geralmente faz no seu dia-a-dia.
L: Então, eu costumo vir à faculdade, tenho aula de segunda à quinta. Não está muito corrido, é tranquilo. Depois fico em casa, vou a alguma festa, vou ao cinema. Tenho muito contato com essa primeira república que eu fiquei quando cheguei, e ai saio com eles, na maioria do tempo fico com eles, passeamos, vamos almoçar.
O: Você fez várias viagens aqui no Brasil, né?
L: Eu comecei a viajar quando meu namorado chegou. Ai a gente foi para São Paulo em março, ficamos num hotel na Rua Augusta. Conhecemos a Catedral da Sé, a República, fomos no prédio do Banespa para ver a vista… Que mais? Bairro da Liberdade, Mercado Municipal, comi o sanduíche de mortadela… A gente não “foi de balada”, porque acordávamos muito cedo para “ir de passeio”, e ai às oito da noite eu queria morrer. Ficamos três dias. Fomos à Avenida Paulista, em uma feira na Praça Benedito Calixto.
Depois de São Paulo fomos para o Rio e ficamos lá cinco dias, e eu adorei! Eu achei São Paulo uma cidade muito bem organizada, metrô muito bom, tem muita coisa cultural, teatro, música, shows, mas não é muito turística. O Rio, eu adorei. Ficamos em um hostel em Copacabana. A gente foi no Corcovado, Pão de Açúcar, Cristo, Ipanema, Centro, Lapa. Eu também não tive nenhum problema. Todo mundo falava “ohh, você é gringa e vai sozinha com o seu namorado para o Rio, vai ter problemas…”. Eu estava com medo! Mas não tive nenhum problema. Para mim foi um choque muito grande a desigualdade que tem aqui no Brasil. Na Espanha tem desigualdade, mas não tão grande. Aqui tem muitos moradores de rua, é um problema bastante grande, acho que não é só eu que percebo.
De Rio foi para Búzios, porque lá tem um casal de “espanholes” que estão morando lá que eu conheço de Sevilha. Gostei muito de Búzios, as praias são muito lindas. Ficamos em Búzios três, quatro dias.
Depois a gente voltou para Bauru. Ficamos em Bauru um tempo e depois fomos para Iguaçu. Eu achei uma paisagem muito linda, lá na Espanha não estou acostumada a ver cachoeiras tão grandes, fiquei impressionada mesmo! Fomos no lado argentino e também no brasileiro. Ficamos muito pouco tempo, fomos na quarta de ônibus, chegamos quinta de manhã e voltamos sexta à noite.
No feriado retrasado, fui para Brasília.
Eu adorei essa viagem, foi a melhor de todas. Eu achei a Chapada a coisa mais incrível! Foi muito encantador, mudou a minha pessoa. Depois eu procurei informações sobre a Chapada, fiz um trabalho de fotografia sobre isso, eu adorei. Eu fui co
m uma menina daqui de Bauru, ela conhecia uma menina que mora em Brasília e elas buscaram a gente e fomos para a Chapada. Ficamos em uma casa incrível, era no meio do mato, não sei, não tenho palavras para descrever! Tinha uma janela enorme que dava pra ver toda a Chapada! Eram duas casas, a maior e a mais pequenininha onde a gente dormia e era de vidro. Então à noite, na hora de dormir, a gente via a lua, as estrelas, era muito claro, parecia que a luz estava ligada! A casa ficava em Alto Paraíso, fomos para São Jorge e também pro Vale da Lua. Depois voltamos para Brasília; achei uma cidade muito bem organizada, mas não é para pedestres, não tem como andar por aquela cidade! Mas eu achei muito legal conhecer Brasília porque é uma cidade muito nova, tem 50 anos, nunca visitei uma cidade assim tão nova. Dá pra perceber pelo planejamento e tudo. Fomos à Catedral, no museu, na biblioteca, fomos no Ministério, um rolê geral. Agora eu gostaria de ir pra Salvador, mas não sei ainda se vaidar tempo.

O: Você fez pacotes com agências de turismo ou foi sozinha?
L: Eu fui sozinha, não peguei pacote nem nada. Fui no susto! Não sei, às vezes é bom fazer pacotes, mas eu achei melhor conhecer por mim mesma. No Rio tinha muitos pacotes para fazer, em São Paulo não tinha tantos. Em Rio vi que tinha um passeio que era pra conhecer a favela. Pra mim não tinha sentido, eu não achava legal fazer um passeio pela favela. Não sei, não acho que seja um ponto turístico, é um problema. Eu gosto muito de planejar o roteiro, meu namorado ficava muito “contento”! Eu que planejei tudo, “hoje a gente vai aqui e aqui, amanhã a gente vai aqui, aqui e aqui”. Eu fazia o planejamento quando chegava do passeio e ele ficava dormindo.
O: Como você se sentiu acolhida pelos brasileiros?
L: Muito bem! No primeiro dia, quando cheguei em São Paulo, peguei o metrô no Tatuapé e tinha que ir até a Barra Funda. Eu não sabia falar nada, carregava duas malas, a mochila, mas o pessoal me ajudou muito, me ajudaram com as malas. O acolhimento é muito melhor do que na Espanha, acho que se um brasileiro for para a Espanha não vai ter o mesmo “recebimiento”.
O: Quais são as diferenças entre ser uma estudante na Espanha e no Brasil? E de parecido?
L: Aqui é tudo mais familiar, mais próximo. Na Espanha, minha turma da faculdade tem umas 100 pessoas, por exemplo. O professor não tem como falar com todo mundo, como vai saber o nome de todas as 100 pessoas? Isso eu gosto muito aqui, estamos próximos dos professores. Outra diferença é na infraestrutura. Lá a infraestrutura é muito melhor, as salas, os laboratórios, têm mais coisas para escolher. Mas não vejo muita diferença no conteúdo. Tem uma professora que fica muito preocupada, ela acha que eu acho a aula dela muito ruim, “uma menina da Espanha que está fazendo a matéria comigo! Lá na Espanha essa matéria seria melhor”, mas eu falei pra ela que não, pra ficar tranquila, que o conteúdo é similar, não tem muita diferença. Na Espanha, a gente não come muito arroz com feijão, mas agora estou acostumada, eu gosto! Mas a comida não é muito diferente… Aqui tem muito mais variedade de frutas, que eu adoro! Outra diferença é a hora de almoçar. No começo, eu saia para almoçar fora no domingo umas duas e meia e estava tudo fechado! Aqui vocês almoçam meio-dia, na Espanha ninguém almoça esse horário, sempre umas duas, três. Estou tentando lembrar de mais coisas… Na Espanha, temos uma tradição religiosa muito forte, mas aqui no Brasil é mais forte, com muito mais variedade. Não entendo muito bem, mas sei que tem muita! No meu apartamento, tem uma igreja de um lado e uma de outro, mas não é a igreja que eu estou acostumada na Espanha, fazem festas, shows. Na Espanha não é assim, é mais tranquilo. Você não vai ver shows! Aqui eu escuto da minha casa, é diferente. Ah, e na cozinha não tem água quente! Eu sinto saudade disso. Acho que é normal, porque aqui a temperatura não é tão baixa, mas lá na Espanha, quando é inverno, precisamos de água quente para lavar a louça.
O: O que você mais gostou do Brasil e o que menos gostou?
L: O que menos gostei foi aquele jeito das pessoas brasileiras que gente marca às três, mas na verdade é às cinco! Essa informalidade. “A gente se encontra aqui meio-dia” e ai a pessoa aparece duas horas depois. Estou me acostumando, mas gosto de ser muito pontual. O que mais gostei foram as pessoas acolhedoras como a gente estava falando. As pessoas são muito abertas. Aquele menino deixou que eu ficasse em sua casa sem problemas e ele não me conhecia nada!
O: O que você está sentindo mais falta da Espanha, fora sua família?
L: Ah, lá em Sevilla, como menina e sozinha, estou acostumada a sair tarde à noite, posso ficar na rua até às três da manhã. Isso aqui eu não posso fazer. Não tem como! Tenho saudade disso! Lá, quando eu costumava sair com meus amigos, não eram tanto festas em casa, era de um bar a outro, na rua. Se eu tivesse que ir embora sozinha, não teria problemas, estou acostumada a ir sozinha a todos os lugares. Aqui, essa república dos meus amigos fica muito perto da minha casa, duas quadras. Mas quando eu fico lá à noite, por exemplo, até a uma ou duas, o pessoal não me deixa ir embora sozinha. Eu fico me sentindo mal, eles tem que sair de casa para me acompanhar. Sinto falta dessa liberdade, aqui quando chega à noite, “fodió”!
O: Como estão sendo as últimas semanas aqui?
L: Então. Na verdade, agora, é quando estou me sentindo realmente bem aqui. Não sei se é porque estou indo embora ou se porque já estou acostumada a ficar aqui, a ter uma vida aqui, a ter confiança com a galera. Agora vou ter saudades! Fico triste e fico “contenta” que vou embora. Não tenho data fixa pra ir embora, não estou tranquila, preciso saber quando vou embora pra saber o tempo que me resta. Mas agora é quando me sinto melhor aqui.
Regiane Folter








